Itaimbézinhos

 O abismo e suas lições de perspectivismo inspiram pinturas à oléo, as quais se desenvolvem no litoral, longe dos espaços confinados da cidade. São pinturas, advindas de muitos estudos fotográficos e esboços em cadernos de notas, que tratam de uma obsessão pessoal por certa paisagem. O penhasco foi um local visitado pelos meus pais quando jovens enamorados. Cresci sendo levada ali pela minha mãe. Não haviam cercas nem guias turísticos e me debruçar no limite do desfiladeiro, testando minhas vertigens em olhar para baixo era uma das melhores sensações vividas na minha infância. A primeira pintura procurou reproduzir a visão obtida durante minha única descida desse estreito desfiladeiro, num ângulo que não tenho nenhum registro senão as lembranças do que vi. Descer sem equipamento seus setecentos metros, segurando nas pedras, foi uma experiência única, sendo seus efeitos pensados em  minha tese, escrita entre a Arte e a Educação  em defesa da força de Gaia e seus fluxos. Percorrer o fundo do abismo em suas curvas que chegam a fazer quase 6 quilômetros entre paredões cuja distância entre um e outro tem em torno de duzentos e vinte metros, permeadas pelos seus cristalinos cursos de água, vegetação abundante e encontros inusitados com a fauna local, especialmente lagartos, produz sensações sublimes. Os ensaios pictóricos fabulam as cores naturais do Itaimbézinho em prol das impressões magnânimas provocadas por esta paisagem.  A área de preservação do  Parque Nacional dos Aparados da Serra possui 13.060 hectares com Mata Atlântica e Floresta de Araucária. Limite entre os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, este cânion, o mais estreito e afunilado dos muitos que compõem os Aparados, se chama Itaimbézinho,  que para os tupis  é “pedra afiada”, expressando seu caráter periculoso e por vezes mortal. Tanto que, hoje,  é proibido fazer a descida que fiz em novembro de 1995.