Teia, obra feita em etapas, é um  trabalho em processo desde 1993, que cresce e torna-se outra coisa, vira uma superfície, constrói, por si mesmo, uma paisagem. Instalação de um só objeto, uma extensa superfície táctil maleável, essa teia feita pelo encadeamento de linhas cria ambiências, planos de fundo e sobreposições.  Tecida por pontos feitos de crochê, a Teia desvia a função decorativa dessa técnica, ornamento que compõe objetos utilitários do cotidiano: cortinas, toalhas de mesa, trilhos, roupas, bolsas, capas de almofadas, colchas, almofadas, bordas e detalhes em roupas de cama, toalhas de banho, panos de prato, entre outras coisas. A técnica têxtil dá suporte à extrapolação de tamanhos, sai das dimensões domésticas que determinam o trabalho manual e cria outros sentidos para aquele fazer.  Ao preencher um ambiente, uma Teia de certas dimensões torna-se um estorvo em espaços restritos. Dentro de uma casa é incômoda, excita as crianças, atrapalha a visão, dificulta acessos, prende os gatos, junta pó. Nas ruas pode ser carregada, quando instalada em praças captura pedaços de vegetação, carrega lixo, resíduos inusitados.

Tal rede de pontos é feita com vários tipos de linhas, enlaces, nós e agulhas.  Poética visual em andamento por anos e anos, a Teia tem dimensões progressivas, que aumentam gradualmente nos períodos em que sua tessitura é ativada. Sua superfície descreve um núcleo cônico descentrado, que se espalha irregularmente numa trama  de linhas de crochê unidas num diâmetro que varia entre 578 cm e 467 cm,  na medida atual. A cor preta, neutra anulação de cor, que a carrega com uma presença austera, embora lúdica. Feita por muitos anos na solidão, essa teia forma-se na junção aleatória de pontos sem contagem, enlaces “descontados” da agulha na linha. Seu gesto criador segue fluxos de pensamento esparsos, meditações sobre conceitos, elucubrações sobre as parcas, o destino, a feminilidade, os sentidos da arte e muitos acontecimentos na Educação. A flexibilidade de sua malha permite que a Teia apresente múltiplas possibilidades de formação, acoplando-se, estendida, a qualquer espaço ou corpos onde possa se enganchar. Possui diversas possibilidades de constituição; pode ser exposta aberta, ser amarrada de várias maneiras e criar volumes densos, pode vir a se fechar em casulos, enfim, sua feitura é aberta, propõe muitos caminhos, todos a se escolher, mas suscetíveis a um deixar acontecer. Sua feitura em crochê, com linhas diversificadas, se estendeu no tempo e se colocou em lugares inusitados, sempre intervindo em espaços para os quais sou convidada, designada para um trabalho educativo ou acadêmico. Teia me acompanhou em conferências, palestras, ocupou saguão de eventos, espaços de diversas instituições culturais pelo Brasil, interagiu nas ruas de Berlim e em muitas salas de aula. Esse objetinstalação promove a fusão dos participantes através de encontros onde serão tratadas, junto ao enlaçar dos pontos, questões sobre o fazer artístico, a criação de superfícies e seus desdobramentos pedagógicos. Penetrável, a Teia é um dispositivo de sensações que evoca as obras contemporâneas construídas em redes e junto a pesquisas. Ao longo do espaço de tempo durante o qual a Teia se constituiu, uma movimentação constituída por uma série de obras que sintetizam partes disjuntas, se costura a trabalhos artísticos que partilham dessas concepções.

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