NÓS são objetos maleáveis, passíveis de manipulação interativa, que, tal como os Bichos (1960) de  Lygia Clarck, não possuem formas, nem medidas, fixas. São esculturas que se adaptam ao espaço expositivo de acordo com o que se apresenta no local. Podem ser suspensos, colocados no chão, pregados em paredes, sendo sua disposição definida a partir das relações espaciais com outras obras e com as superfícies e fundos em que se mostram.

 

Os fios usados na série NÓS (2019) advêm de expurgos de um dos materiais, a corda de sisal,  usada nos manifestos políticos performáticos A’CORDA (2014 a 2017) e na série de performances e esculturas chamadas AMARRAS (2015 a 2017). Diversos fragmentos de uma corda de sisal de 12 mm de espessura, composta de fibras  retorcidas em trançado de três pernas constituem três corpos escultóricos, de dimensões médias,  e vinte e sete pequenos segmentos de um ou dois nós. Tanto os fragmentos como as esculturas podem ser expostos em posições horizontais ou verticais, juntos ou separados. Em função da cor amarelada, ganham mais força sobre fundos brancos, sendo possível serem dispostos, colados, pregados ou arranjados sobre panos e telas. Requerem focos de luz para mostrarem o dourado sutil do material.

 

O sisal, matéria prima da indústria cordoeira, um dos muitos tipos de agave,  é, das fibras vegetais, uma das mais duras que existe. Biodegradáveis, as fibras decompostas das cordas de sisal podem se tornar fertilizantes naturais que equilibram a textura de solos demasiado argilosos ou arenosos. Embora sua origem seja mexicana, se adaptou ao nordeste do Brasil. A indústria de cordas e tapetes de sisal se desenvolve  a partir de mecânicas simples, de modo quase manufaturado, sendo tanto seu comércio quanto seu cultivo fundamentais nas cadeias  econômicas do agreste. Chamado de “ouro verde”, as roças de sisal empregam cortadores de palha, sevadores e estendedores de fibra: uma gama de trabalhadores braçais invisíveis entre os espinhos do sertão.

 

Enquanto possibilidade de uma poética “de fibra”,  NÓS nasce na solidão desesperada, no enfrentamento de muitos fracassos e reincidentes rejeições. NÓS se criam no acúmulo de referências passadas e criações ignoradas. NÓS ecoa o silêncio incompreendido de quem não recebe respostas. NÓS grita no desinteresse  alheio  pela vida que nos cabe. O nome da série joga com o duplo sentido da palavra enquanto pronome e substantivo: a primeira pessoa do plural e o resultado de um fio enlaçado e apertado em torno de si mesmo.

 

Em termos compositivos, as esculturas médias feitas de segmentos de  corda sendo marrados numa sequencia de nós, recitam as Droguinhas (1966)  de Mira Schendel, que foram elaboradas com papel de arroz retorcido. Porém, ao contrário de Mira, “nós” não nascemos no centro da Europa, nem conseguimos recursos para estudar nos grandes pólos culturais onde produções artísticas são legitimadas. Esse trabalho ocasional, feito especialmente para a Bienal de Arte Têxtil Contemporânea,  que também aproveita sobras, também feito no ócio dos possíveis momentos de ateliê, muito improvável que seja apresentado em Londres como foi despretensioso trabalho de Schendel. NÓS, em nossa insignificância provinciana, submissos a oportunidades incertas, somos droguinhas mesmo. Como os trabalhadores do sertão, somos fadados a sumir.

 

 

OBSERVAÇÃO

 

A série AMARRAS, embora esteja aberta a interlocuções e relações,  é de minha total autoria e foi pensada a partir dos sofrimentos vividos como servidora em instituição pública.  Em seu amplo inventário de incidências e precursores, dialoga com obras como as de Artur Barrio, Claudia Sabani, Dione Veiga Vieira e Tunga, sendo  desenvolvida em pesquisa própria  na linha temática Poéticas Transversais do Programa de Pós-graduação em Educação da UFRGS. A intenção para  Geografías Sensibles: Arte e Política y Movimiento é explorar as possibilidades escultóricas dos materiais adquiridos por mim para a realização da pesquisa, a qual não tem nenhum tipo de financiamento.  Embora tenha se desenvolvido junto a manifestações coletivas propostas ao grupo que coordeno, especialmente aos orientados de graduação e de mestrado e doutorado, as manifestações também foram aderidas por artistas não institucionalizados e não academicizados e, em alguns casos, público espontâneo. As fotografias aqui reproduzidas são minhas, reproduzem o meu olhar e a minha  relação com a a corda, tendo apenas, neste portfólio, a presença  de meu parceiro,  colaborador no registro de uma performance individual ocorrida no Canto eXquiZ, ateliê que constitui espaço  para estudos, e práticas corporais. Os resultados parciais deste trabalho podem ser conferidos nas seguintes publicações:


ZORDAN, Paola.  A' CORDA. In: Wagner Ferraz. (Org.). Experimentações performáticas. 1ed.Porto Alegre: INDEPin, 2014, v. 1, p. 38-53.

ZORDAN, Paola. Poéticas para uma micropolítica institucional. Crítica Cultural, v. 11, p. 273-285, 2016.

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